Quando nos deparamos com um indivíduo adulto que acredita ser um cão — usando fantasia, andando em quatro apoios — a cena pode parecer, no mínimo, estranha. No entanto, esse não é um fenômeno isolado. Existem comunidades inteiras de pessoas que não apenas se fantasiam de outros animais, mas também acreditam genuinamente que são esses animais. Esses grupos são conhecidos como “Furry Fandom e Therians”.

Embora esses grupos não sejam o foco específico deste texto, os fenômenos psíquicos que envolvem tais identificações merecem atenção. Situações como essas, outrora restritas ao ambiente de instituições psiquiátricas, hoje se manifestam livremente no convívio social, como se fossem expressões naturais da identidade humana.
Da mesma forma, há indivíduos que, embora biologicamente de um sexo, acreditam poder se “transformar” em outro, movidos pelo desejo e com o auxílio de vestimentas, maquiagem, e — nos casos mais extremos — intervenções farmacológicas e/ou cirúrgicas. Importa destacar que este texto não trata da pessoa que simplesmente não se identifica com seu sexo biológico ou que sofre com questões de autoaceitação. O que se pretende discutir aqui são os casos em que o indivíduo se percebe genuinamente como outro — como se ao se olhar no espelho visse apenas aquilo que gostaria ou acredita ser, ignorando completamente sua imagem real.
Frequentemente há reações de frustração intensa, indignação e até comportamentos agressivos — nos casos extremos de auto percepção — quando a autoimagem não é reconhecida por terceiros. A dificuldade em aceitar que o outro não compartilha da mesma percepção revela uma ruptura significativa na relação com a realidade. Reações como essas, que parecem escapar à razão, não se restringem a uma única forma de disforia — seja ela de sexo, espécie, ou outra — e compartilham características estruturais em comum.
Embora seja essencial avaliar cada caso, evitando generalizações apressadas, é difícil não perceber semelhanças com a histeria. A histeria é uma condição psíquica estudada por nomes como Jean-Martin Charcot e Sigmund Freud, caracterizada por manifestações tanto somáticas quanto psíquicas. Indivíduos histéricos passam a experimentar no corpo e na mente os conteúdos que acreditam sobre si mesmos. É comum a somatização de paralisias, cegueiras, dores ou outros sintomas sem base orgânica, cujo único vínculo é o relato subjetivo do indivíduo.

Um caso clássico da literatura psiquiátrica é o de “Anna O.”, paciente do Dr. Josef Breuer, citado por Freud em seus estudos sobre a histeria. Entre outros sintomas, Anna O, apresentava perda da fala e paralisias sem qualquer causa médica identificável. A histeria, portanto, está longe de ser um fingimento: trata-se de um sofrimento real e autêntico para quem o vivencia.

Com isso em mente, é possível traçar paralelos entre o fenômeno histérico e os indivíduos que acreditam ser, por exemplo, um animal ou alguém de outro sexo. Ambos os casos envolvem somatizações e representações mentais intensas de aspectos exógenos. No entanto, é necessário considerar também a possibilidade de transtornos psíquicos mais graves, como a psicose.
Para compreender a psicose é fundamental conhecer o conceito de “juízo de realidade” — um elemento central para o funcionamento psíquico saudável, segundo a literatura da Psicopatologia. O juízo de realidade diz respeito à capacidade de distinguir o que é real do que é imaginário. Sua preservação ou comprometimento é determinante para diferenciar manifestações psíquicas como neurose, histeria e psicose.
Quando se olha para o outro, o que se percebe é aquilo que o “juízo de realidade” permite a cada indivíduo reconhecer — e isso está diretamente relacionado à sanidade. Em outras palavras, não se pode enxergar o mundo a partir da vontade ou fantasia do outro; só é possível perceber conforme os limites e parâmetros da própria sanidade.
Esse princípio entra em conflito com as dinâmicas atuais das relações sociais, marcadas por políticas amplas de aceitação. A aceitação em si não seria um problema, não fosse o fato de, em muitos casos, vir acompanhada da imposição de ignorar a realidade objetiva e substituí-la por um imaginário. E o problema se agrava ainda mais quando se exige que esse imaginário — que pertence ao outro — seja aceito como se fosse compreendido, quando na verdade é, para quem observa, totalmente desconhecido.
(Continua na próxima publicação)
Caro Marco, estou aguardando o próximo texto… Dicas ou indicações de leiuras são sempre bem-vindas! 😉
E esta sua colocação…”A aceitação em si não seria um problema, não fosse o fato de, em muitos casos, vir acompanhada da imposição de ignorar a realidade objetiva e substituí-la por um imaginário”, me traz um questionamento inicial.
Qual o limite da imaginação e da fantasia?
Abraços,
paganotti
Cara amigo,
Como indicação inicial para leitura recomendo: “Ponerologia, Psicopatas no Poder”, de ANDREW LOBACZEWSKI.
Referente a sua pergunta, esta me levou a reflexões e pensei que será necessário dar a devida importância para ela, descartando respostas simplificadas. Assim, considerando esse meio como diminuto para isso, resolvi incluir uma resposta ao longo dos próximos textos.
Obrigado pelo comentário e, principalmente, pela pergunta.