“Cada ciclo tem a sua hora de se fechar, e este é o meu ultimo escrito por aqui. que o — tempo —, esse velho escultor de destinos, nos dê a possibilidadde de reencontro…”
Tempo e Percepção
O tempo real é somente aquele que nós vivemos de fato.
As ilusões se formam quando acreditamos que todo tempo é, por si, o tempo —, mas longe disso, o tempo verdadeiro é aquele que traz a significação na nossa percepção do passado e do presente, quando estamos, de fato, inseridos na realidade da existência.
Preocupamo-nos de forma exagerada com o tempo, como se fosse algo sob nosso controle. Mas esquecemos que ele está fora de nosso domínio. A única parte do tempo que verdadeiramente nos pertence é aquela que coincide com a nossa própria vida — vivida de maneira consciente, que fica eternamente na memória.
Muito se questiona sobre o que é o tempo: como ele surge, como se realiza. No entanto, talvez ao tratá-lo apenas como um evento cronológico, deixamos de lado aquilo que ele verdadeiramente é — algo que escapa à nossa compreensão. Nem mesmo as grandes tentativas filosóficas, como O Ser e o Tempo, conseguem revelar o que o tempo é em sua essência. A noção de “ser-no-mundo” também falha em captar sua substância. Poderíamos dizer, então, que o tempo, em última instância, talvez nem exista. Ele está apenas na percepção que temos da constante transformação daquilo que chamamos de realidade — uma realidade que pertence exclusivamente ao indivíduo. Por fim, o tempo só existe enquanto é percebido. Ele nunca se apresenta como uma realidade concreta e universal, mas apenas como uma experiência interna, particular e irrepetível. Cada indivíduo vive o tempo de forma distinta, porque esse tempo, em sua real dimensão, não é o mesmo para todos — ele pertence apenas ao indivíduo e para si…
Um indivíduo privado de qualquer instrumento — interno ou externo — para perceber as transformações em si mesmo ou na realidade ao redor, jamais terá consciência do tempo.
Tomemos como exemplo alguém condenado a viver para sempre em um quarto escuro, em completo isolamento sensorial.
Sem acesso a qualquer estímulo, a qualquer mudança perceptível, esse indivíduo estará aquém das transformações da realidade. Sua percepção não terá referências para medir ou testemunhar o fluxo das transformações. Neste caso, o tempo, embora ainda existente para os demais que continuam a experienciar mudanças, deixa de existir para ele — não porque tenha cessado ontologicamente, mas porque sua percepção foi suspensa. Sem percepção das transformações — que são, por natureza, a própria linguagem do tempo — o tempo simplesmente não se manifesta.
Portanto, o tempo, ausente de qualquer forma de percepção, não possui existência para aquele que não pode experimentá-lo. Ele deixa de ser uma realidade e retorna ao estado de não-ser para aquele cuja apreensão está privada da mudança.
Tomemos, um outro exemplo, alguém que, por uma desventura da vida, tenha sido lançado em um estado de coma durante anos. Embora vivo, esse indivíduo não possui percepções sensíveis das transformações da realidade. Para ele, não há dia nem noite; não há dias, meses ou anos. Assim, ao despertar — se um dia despertar —, encontrará não apenas um mundo alterado, mas também a si mesmo deslocado da cronologia do tempo e das transformações que ocorreram no mundo e nele próprio. Durante esse período, nenhum dado da realidade foi internalizado. A passagem do tempo não lhe pertenceu porque não foi vivida, não foi percebida. Em outras palavras, o tempo que passou para o mundo não passou para ele. Seu tempo pessoal permaneceu suspenso — como se estivesse congelado no ser, e não no vir-a-ser. Sua percepção esteve alheia à sucessão dos acontecimentos, e por isso o tempo, para ele, simplesmente não existiu.
O TEMPO
— O tempo é relacional. Ele existe. Existe na expressão relacional da própria existência. —
Se o tempo está somente na percepção humana, então ele só existe para o indivíduo enquanto indivíduo. Por outro lado, mesmo que um indivíduo, por alguma condição adversa, deixe de perceber o tempo — e, para ele, o tempo deixe de existir —, para os outros o tempo continua existindo. Mesmo que todas as pessoas do mundo deixem de percebê-lo, o tempo aparentemente segue, pois as transformações continuam.
E é justamente aí que surge o problema: o tempo é percebido como uma constante do universo. Ele não muda; o que muda são os entes e eventos dentro desse universo. Essa constância sugere que o tempo ordena e reordena, logo, é fixo e possui uma espécie de gerência própria. Mas, se o tempo não tem presença estática — se ele não “está” em si mesmo —, então ele muda e, portanto, já não é fixo. Aqui se instaura uma contradição. Ainda que ela pareça dissolvida por distinções de modo (tempo como ente, tempo como percepção, tempo como função), essas distinções não resolvem o impasse: apenas o amplificam.
A complexidade de se estabelecer um conceito universal para o tempo é, inevitavelmente, o maior desafio filosófico. A ciência falha em conceituá-lo plenamente; a filosofia o toca apenas por aproximação. O tempo se revela como uma abstração, uma operação do pensamento diante da sucessão das coisas, mas cuja percepção é variada e multifacetada para cada indivíduo. Podemos considerá-lo uma ilusão traduzida em memória, estado e expectativa. E, mesmo assim, apesar da percepção individual e da possível ilusão, ele não deixa de “estar aí” — ou pelo menos, age como se estivesse.
Com efeito, se o tempo só existe na percepção, poderíamos então inferir que todas as coisas também só existem na percepção. Isso nos leva a um precipício filosófico: o niilismo absoluto. Porque a mesma estrutura argumentativa que se aplica à existência do tempo pode ser aplicada à existência de qualquer ente — inclusive da própria realidade. E, se tudo é relativo à percepção, o ser e o não ser se confundem continuamente. Isto é, se tudo está apenas na percepção, então nada existe fora dela: niilismo pleno.
Avançamos: o tempo é um campo de ordenamento de eventos — espontâneos ou provocados. Mas o que rege a espontaneidade, tanto quanto a provocação? Se o tempo ordena, então ele seria o princípio ordenador, o fundamento da organização do real. Porém, um campo de ordenamento não pode existir por si mesmo sem cair na armadilha da causa eficiente. Se o tempo é o que ordena, então ele ordena a si mesmo — o que é logicamente impossível, pois nada pode ser causa de si. Assim, seríamos forçados a dizer que o tempo é eterno, sem início nem fim. Mas a própria ideia de início e fim já implica tempo. O tempo, então, não pode ser pensado como algo que “começa” ou “termina” — o que desfaz a própria noção de eternidade como ausência de tempo. Porém, se a eternidade é a negação do tempo, então é estática. Não há movimento, não há transformação. Seria o absoluto imutável. Todavia, podemos conceber a eternidade como a totalidade de todos os tempos — mas, nesse caso, o tempo continuaria existindo dentro da eternidade, e a contradição permaneceria. A eternidade se tornaria apenas um modo ampliado de tempo, e não a ausência dele.
Assim, o tempo não pode ser uma substância. Não pode ser uma causa. Não pode ser um ente. O tempo é percebido — essa é a única certeza possível. Mas, se o tempo não possui presença estática, como pode ser percebido? A percepção exige presença. A ausência de presença impede a apreensão direta. Logo, não podemos dizer que o tempo é autor de nada. Ele é percebido na mudança, mas não é o autor da mudança. O tempo não faz com que as coisas mudem; ele é identificável na mudança, não o seu realizador.
Passa a fazer sentido, então, o modo como os antigos imaginaram o tempo: Cronos, deus devorador, senhor de todos os seres — inclusive dos deuses. A mitologia revelou, antes da filosofia e da ciência, que o tempo não é uma entidade descritiva — mas simbólica, impessoal, devoradora. O tempo devora tudo, inclusive os conceitos que tentam explicá-lo. Logo, o tempo é um ente metafísico que escapa à causalidade, que contradiz a substancialidade, que frustra a linguagem. Ele não é ser nem não ser. Ele é o entre: o intervalo onde o ser se desfaz e se refaz continuamente.
O problema continua…
O tempo não é condição da mudança. Pensar assim seria inferir um aspecto que é, na verdade, decorrente. É inverter a ordem do real: tornar o efeito em fundamento. O tempo, pelo contrário, se estabelece na realização do devir — não antes dele. Ele não estrutura a mudança; pelo contrário, se revela quando ela acontece. Surge como expressão do devir, do vir-a-ser, do cruzamento entre a potência e o ato.
Tratar o tempo como uma constante invisível também é um equívoco. Porque ele não paira sobre o mundo como uma abstração neutra. Ele atravessa — ou melhor, ele se dá na cognição, na experiência, na percepção real. O tempo é a relação entre múltiplos estados: entre o que era, o que é e o que será. Ele é um ente de razão relacional — algo que só aparece no rastro do ser em transformação.
E, no entanto, mesmo quando não é percebido, mesmo quando ninguém o reconhece, a transformação continua. E isso nos obriga a reconhecer que o tempo existe, sim — mas não por si mesmo. Ele se afirma na realização do ser. O tempo não é autor, contudo, deixa sua assinatura em tudo.
Pensar o tempo exige, antes de tudo, um caminho da negação — a Apofagia. Porque qualquer tentativa de defini-lo diretamente o falsifica. O tempo não é coisa alguma. Mas também não é o nada. Ele é o entre estados. Um intervalo. Uma abertura. O tempo é, mas se realiza no não ser.
E a eternidade? A eternidade não é a ausência do tempo — é a realização de todo o tempo. Isto é, talvez seja a totalidade de todos os tempos. E, nesse caso, o tempo continua existindo dentro da eternidade, como aspecto do movimento. E a contradição volta: a eternidade se torna apenas um tempo estendido. O tempo, então, não pode ser contido. Nem pela eternidade. Nem pela ciência. Nem por linguagem alguma. Portanto, o tempo não é uma substância. Nem uma causa. Nem um ente. O tempo é uma expressão do devir. Uma forma sensível que emerge no instante em que o ser transita. E, ao mesmo tempo em que se realiza, ele desaparece. Porque não pode permanecer. Porque sua única forma de ser é passando.
Voltemos à mitologia antiga — talvez uma concepção muito mais palpável da relação com o tempo. Com efeito, e talvez por isso, os antigos o imaginaram como Cronos — o devorador. Porque o tempo devora tudo — até mesmo os conceitos que tentam explicá-lo.
Assim, o tempo não antecede. Não ordena. Ele acontece. Ele se inscreve nas fissuras do real. Ele é o espaço entre um instante e outro, entre um ser e outro. Ele é o intervalo onde o ser se desfaz e se refaz continuamente.
O problema continua. E talvez deva continuar. Porque pensar o tempo é escavar o fundo do próprio pensamento. E, quanto mais fundo se vai, mais ele escapa. E talvez seja justamente isso o tempo: aquilo que só existe enquanto escapa.
Por fim, o tempo é relacional. Ele existe. Existe na relação da própria existência.