29/06/2025
  • Avatar photo Sidney Cruz

Um certo dia, dirigindo meu carro por uma via qualquer da cidade, olhei para o céu e, como num sussurro inevitável da alma, disse a mim mesmo: preciso ir-me desse mundo, não posso afundar em tamanha irracionalidade. Havia algo no ar, uma espécie de desconexão que contaminava tudo. Não era apenas um pressentimento; era uma certeza incomoda: perdemos o fio da racionalidade.

Desde jovem, aos treze anos, lembro-me, como se fosse hoje, de quando li o primeiro capitulo de Eclesiastes. Aquela leitura não me trouxe um extremo desconforto: “tudo é vaidade”, dizia o texto, e aquilo me atravessou como uma lâmina silenciosa. Entendi ali que a vida era breve, um sopro. Mas havia, também, a intuição de que algo maior nos chamava para além desse breve lapso que chamamos de existência. A consciência da finitude não me paralisou. Pelo contrário, despertou em mim o anseio por compreender o que realmente importa.

Entre os fluxos e refluxos das vicissitudes que a própria vida produz, fui percebendo que viver é, em grande parte, enfrentar. Enfrentar o desconhecido, os limites, os vazios; romper barreiras sem ilusão, sabendo que isso não me torna nem mais, nem menos que qualquer outro.

Mas há algo que me inquieta mais do que o esforço de viver: a constatação de que a racionalidade tem sido lentamente abandonada. O mundo já não opera pela racionalidade. As pessoas perderam a capacidade de discernir, de refletir com profundidade. Já não questionam o porque das coisas. A linguagem foi distorcida. As palavras já não significam o que significavam. A verdade se tornou relativa, a realidade virou construção, e o absurdo passou a ser aceito com naturalidade.

O mundo em que vivemos tornou-se um lugar onde a racionalidade é constantemente atacada. O ruído das ideologias e da manipulação da realidade cria um cenário onde a verdade é moldada não pela experiência, mas pela conveniência e pela necessidade de controle. A racionalidade não é mais a bússola que orienta nossas ações, mas uma relíquia de um passado que parece cada vez mais distante. A fragilidade da racionalidade humana não é apenas uma falha eventual; é um sintoma profundo de um afastamento histórico dos pilares que sustentaram nossa consciência por milênios. Acreditamos que somos capazes de fazer boas escolhas, mas, no fundo, o que fazemos é justificá-las. Primeiro para nós mesmos, depois para os outros. Não por convicção racional, mas por necessidade de pertencimento, por adesão a uma identidade grupal, comportamento totalmente tribal. Estamos diante de uma desconfiguração provocada e não é de hoje. Homens autodenominados iluminados sempre acreditaram ser capazes de reinventar o mundo, trazer um “paraíso na Terra”, guiados por devaneios ideológicos alheios à experiencia histórica e à realidade concreta.

Não deixamos de perceber o perigo que ronda o presente. Ainda reconhecemos os sinais: não se acaricia uma onça nem se estende a mão a uma serpente. Como nossos ancestrais, ainda temos olhos para a tempestade que se anuncia, para os trovões que antecipam o caos. Carregamos uma sabedoria não escrita, herdada de uma verdade que transcende o tempo e escapa à rigidez dos conceitos científicos modernos.

E o tempo? Agostinho já nos alertava: “Se ninguém me perguntar, eu sei. Mas se quiser explicar, já não sei.” O tempo é um enigma que só pode ser acessado no agora. Do presente, tocamos o passado, memória viva da humanidade. Do presente, vislumbramos o futuro ainda envolto em sombras. A verdade não está num amanhã idealizado, mas na tensão constante entre o que foi e o que é. Não há mundo melhor fora do tempo. Não há verdade fora da experiência. E no tempo do agora que discernimos o bom e o mau, o verdadeiro e o falso.

Flusser diria que vivemos numa cultura programada, onde os dispositivos tecnológicos moldam a realidade e manipulam a linguagem que nos forma. A linguagem, violentada por interesses, já não revela o mundo, oculta-o. Heidegger alertava para o jogo perigoso das palavras, e os antigos nos diziam: Logos é o fundamento. Quando a palavra perde seu sentido, o mundo perde sua estrutura.

É aterrorizante perceber que não compreendemos mais nem a nós mesmos. A dificuldade em comunicar é o sintoma visível da falência do pensamento. Perdemos a luz da razão. Vivemos imersos num trabalho contínuo de emburrecimento programado, aceito, defendido.

Por fim, vivemos em uma era onde a racionalidade está em risco, não apenas pela complexidade crescente da tecnologia e da comunicação, mas pela nossa incapacidade de lidar com a formação ontológica da consciência individual. A desconfiguração da linguagem e a manipulação da realidade através de ideologias desconectadas da experiencia humana histórica ameaçam nossa capacidade de fazer escolhas racionais e fundamentadas. Portanto, é imperativo que continuemos sendo consciência humana, como indivíduos que somos, construindo uma compreensão da realidade que nos cerca, não desprezando os processos transcendentes do desenvolvimento humano. É certo que passamos por um declínio civilizatório, nada mais é que efeito da perda da individualidade. Nada está perdido, não por enquanto.