Era só uma conversa. Não era para ser sério. Era só uma conversa.
Marco Antonio estava na fila do pão. Deveria ser rápido, não fosse um atraso na fornada. Em cinco minutos teria o pão. Que tanto.
– Parece que a fome atrasa o relógio – disse a pessoa logo ao seu lado.
Marco olhou para face da qual havia ouvido a voz. Era uma mulher. Foi por um instante, destes tão curtos, que só quem observa de perto pode perceber e captar a essência. Tinha um olhar longínquo, a pele clara inspirando transparência. Reparou o adorno em pérola delicado finalizando o contorno do rosto de traços finos e elegantes na orelha direita. Os olhos eram suaves e, como feixes de luz intensa, naturalmente penetrantes. Eram claros. No centro da face o nariz desenhava a elegância do rosto que se recobria dos movimentos de cabelos longos e claros num rosto que expressava com naturalidade inteligência. A mulher era bonita; trazia beleza.
– Não deve demorar – respondeu em tom sincero e completou – Não é a fome um bom tempero?
Ela riu. Marco também.
– Deve ser isso que o tempero faz. Ajusta o tempo ao sabor que fome pretende saciar. – disse ela.
– E poderia a fome interferir ou alterar o sabor?
Ela riu novamente. Marco só sorriu.
– Muito prazer. – disse Marco estendo a mão. – Marco Antonio – completou com simpatia.
– Anna. – disse ela. – Prazer.
Anna estava em branco com uma pequena malha de meia estação em tom azul claro.
– A fome parece ter chegado cedo hoje. – disse Marco.
– Estou saindo do plantão, não comi nada.
– Médica?
– Sim. No hospital Nossa Senhora da Luzes, aqui perto. Conhece?
– Sim. Nunca precisei, mas conheço sim. – e perguntou com alguma hesitação – E como foi o plantão?
Ela sorriu com os lábios e com olhos expressou preocupação.
– Foi… – disse em tom reticente.
– Entendo.
– Tem umas coisas estranhas acontecendo, sabe?
– Quer falar?
– Preciso.
– Diga, Anna.
– O assunto é delicado e costuma ser difícil de entender e aceitar.
– Acho que estou entendo.
– Marco, quer mesmo ouvir?
Marco percebeu e intuiu do que se tratava e não hesitou e falou.
– Inoculados estão adoecendo?
Anna expressava alívio pelo rápido entendimento e ao mesmo tempo, o belo rosto, migrou para a serenidade preocupada com aquilo que expressou.
– Marco, as vacinas do Covid não são legais.
– Eu sei, Anna. Não fui inoculado com experimento.
– Marco! – disse como quem se alivia de toda dor e encontra um par. – As consequências são sérias.
– Os efeitos adversos… – completou Marco
– Sim Marco. Sim!
– Tenho lido a respeito. Parece que a teoria da conspiração se transforma em teoria da constatação.
– É.
Anna expressava a pura constatação daquilo que precisava ser superado.
– Eu também não tomei essa coisa. – disse Anna.
– Próximo! – disse o atendente.
O pão estava pronto.
– Vai dar tudo certo, Anna. – disse Marco.
– Deus queira, Marco.
– Ele quer.
A fila andou.