QUEM É O SUJEITO?
A Inteligência artificial e o fim da arte
Não estão chorando em vão os produtores musicais que perdem cada vez mais espaço para imbecis que não sabem tocar um ré maior e tão pouco são cientes do que se trata a nota e a harmonia, mas apertam um botão e sai uma produção de R&B tão competente quanto um Brian McKnight ou Tank faria. Noites curtas, e de vez em quando em claras quando pensam no futuro de seu ganha-pão vendo a evolução – ou revolução – da tal inteligência artificial.
Algo irá morrer, e não apenas o emprego de milhões, não apenas a economia do músico, mas a própria arte, assunto este que causa em si confusão aos montes na cabeça do pós-moderno, que é desde pequeno programado para ser néscio e não entender nada acerca de si mesmo e, portanto, só o que resta é a superfície de um dos aspectos de sua humanidade, mas que está longe de ser a essência humana. Fácil é abrir caminho para seguir rumo ao novo lar que é o inferno da própria alma, matando-a ao vendê-la ao espírito demoníaco do homo-economicus.
Numa entrevista, perguntaram ao renomado filósofo da arte, Arthur Danto, se as obras de artes feitas pelos elefantes que pitavam em telas usando pincéis gigantes manejados pela tromba, do qual eu mesmo nem sabia que existia, são artes. Danto foi bem enfático ao afirmar que, de jeito nenhum. A arte é uma atividade puramente humana, por mais engenhosa que seja o feito de um animal. Não posso discordar do filósofo e crítico. Tomemos, por exemplo, as engenhosidades dos marimbondos ao construírem suas casas. Por mais incrível e admirável que seja, não pode ser chamada de arte. Anselm Kiefer alega que a arte é uma atividade espiritual. Quando Kiefer enuncia a premissa, está apenas reforçando o fato de o homem ter a estranha e misteriosa capacidade de consciência estética.
Aristóteles já nos ensinou que a forma mais básica de vida é onde sua competência máxima para crescimento e decadência é a nutrição. Os vegetais são desta ordem. Ora, se a ave ou o cachorro não são capacitados a fazer uma avaliação estética, tão pouco poderia o pé de carambola.
Baseado nisto, é fácil notar que um computador não é um ente menos inanimado do que uma pedra. Por efeito, temos que concordar que não há, nele, capacidade nutritiva e, por conseguinte, nem crescimento e decadência orgânica. Não há vida alguma no computador. De maneira nenhuma, ignoro o fato de haver alguns que consideram realmente que o software é a alma do computador (e há quem pense mesmo!), mas tal só podemos concordar no âmbito de simulacro. Levando isto em conta, a inteligência artificial é algo até um pouco parecido com inteligência, mas não é. Eu mesmo acho que não é nem um pouco parecido com “inteligência”. Não pode haver simulacro de inteligência, o que me ocorre é uma conclusão óbvia de que há um certo afã de engano sinistro nisso tudo.
Primeiro, notemos que “inteligência artificial” é termo predicado de um sujeito. Este sujeito é quem? Aí que a obscuridade tem seu início. O método de uso das ferramentas é basicamente de requerimento. Diferente do Google, que é ferramenta de busca. A IA é um chat. Chat não é busca, é pedido, conversa que se tem em potência. Mas uma conserva sempre é conversa com alguém.
É indiscutível que o ser humano, em toda a sua história, só conversou com deuses e homens. Mesmo os de culturas onde havia rituais e diálogos com entes da natureza, como animais e plantas, uma ou duas, ou estes estão divinizando-as num tipo de panteísmo, ou, por outro lado, as estão antropomorfizando. Mas no geral, sobrevivemos e chegamos até aqui, basicamente através das relações sociais com outros homens e na relação particular com Deus, num diálogo em que sabemos inteiramente quem é o sujeito do qual a inteligência é predicada.
Não é o caso da IA, chat vazio de um “eu” consciente que ouve com a sensibilidade e consciência, emoção e intenções, retendo toda uma história real que remonta ao início dos tempos na genealogia do mundo. Quem é o sujeito do chat? Quem erradia a tal “inteligência” e nos dá as mais bem elaboradas respostas, criando a mais destra obra quando a solicitamos? Não importa responder, apenas precisamos ser capazes de enxergar que não é humano e tão pouco divino – as duas únicas possibilidades de diálogo. No fim das contas, é o ente inanimado, uma pedra ou um pedaço de ferro que emite luzes. O resto são somente dados bem ordenados que obedecem a um comando sem saber que está obedecendo.
Pois bem, assunto denso e complexo seria explicar o que é arte, e claro que não farei isso agora, tudo o que expus no começo é eficaz para compreendermos que uma IA não pode criar arte. A obra de construção do próprio lar que a formiga executa tem mais “valor artístico” do que uma máquina criando versos dignos de Shakespeare e partituras tão bem feitas quanto a de um Robert Schumann. Mas não é arte. Mesmo que uma produção musical de cinco minutos fique mais impressionante do que as peças de Miles Davis e Bird juntos, a artificialidade disto impede a classificação de arte. Kiefer estava certo. O espírito é o motor da arte. Esta é apenas a manifestação material daquilo que está gritando no interior do homem. O criador quer sentir sua arte pronta e apresentá-la ao mundo, e o mundo está ciente do gênio por trás da criatura. Mondrian e Cezanne foram pessoas reais, e eis aí o valor existencial de suas obras. Há uma biografia humana, um sujeito muito bem definido, com todo o peso de sua personalidade envolvido e entranhado na obra. A relação do espectador com a arte em sua frente só vem depois da interação do gênio com aquela obra. É uma comunicação onde arte é linguagem que concatena o criador e o espectador. Portanto, voltemos necessariamente à pergunta inicial: quem é o sujeito do chat GPT ou do Grok?
Só que o problema é ainda pior.
O futuro é pessimista não devido ao engano das máquinas, mas é graças aos enganados. A modernidade afundou o homem num abismo soturno, em que a imagem de Deus desaparece e, com ela, toda a posse consciente da objetividade platônica do Bem, do Belo e da Verdade. Onde Jesus responde Pilatos não o que é a verdade e sim quem é, hoje, o homem responde que esta verdade está em si mesmo e ela é relativa a cada um. Com a perda do parâmetro do absoluto veio a perda de religiosidade, do sentido transcendental que se ergue no pedestal da existência, o supremo Ser, pivô da ordem universal e pessoal. Se cai Deus, tudo se desfalece, inclusive o sentido estético. É, ou deveria ser, a verdade do autor que prevalece através da luz divina, a ordem do bem e do belo. Se tudo isto se perde, só o que sobra é a funcionalidade de uma Bauhaus ao rechaçar os ornamentos, dando-nos, em vez de um lar, uma caixa vazia, estranha, sem beleza nos detalhes, algo meio moribundo e frio. Na escultura ou na pintura, a transformação da arte em artesanato, bonitinho, mas com funções comerciais específicas, repelindo o gênio e despersonalizando a obra. O homem funcional é o homem sem humanidade, sem o sentido das coisas, um mundo sem cor, apenas num cinza que se esconde nas névoas dos desejos sem sentido, capeando apenas estados psíquicos de gerações sem referência, e por isto histéricas. O homo-economicus é o único domínio e interesse. Talvez o amor ao filho, caso não atrapalhe as saidinhas para as baladas com amigas de trinta e cinco anos. Não se exige muito enfrentar o óbvio: o de que parte daquilo o qual chamamos “ser humano”, se foi. No vazio, veio um processo sem precedente de emburrecimento, que tem como efeito a insuperável falta de discernimento e coerência na capacidade de percepção. O homo-economicus não é mais humano e sim um papel social.
A sociedade está menos humanizada e, com isto, não fala mais com Deus e sim com a IA. Se toda a decapitação da inteligência e percepção é a característica da casta que reina a sociedade nos nossos tempos, logo, ela não perceberá que a substituição fantasiosa, mas instrumental e até funcional da arte pela IA, será aprovada, como já está sendo, com no máximo críticas de que ela roubará o emprego do produtor musical e este não terá um futuro econômico. Este é o auge da preocupação do homo-economicus. Reclama sua posição de artista em termos financeiros, não percebendo que o problema é mais significativo e profundo do que seu ganha-pão. O imbróglio é que algo impessoal está destruindo não somente a arte, mas a própria forma humana. O artista hoje em dia não concebe isto, não nota o que Arthur Danto percebeu ao desclassificar a possibilidade de um elefante ser um pintor. Mas o músico, que chora, continua preocupado com suas contas. Deveríamos estar mais preocupados com a sobrevivência da humanidade como tal.
Não fomos feitos para falarmos sozinhos, pois quando eu era pequeno, costumávamos dizer que isso é comportamento de doido. Conversamos com a gente, ou então com Deus. Mas há um monte aí falando sozinho e achando que está tendo uma conversa com seres divinos. Concluo, portanto, que não é a inteligência artificial que está destruindo a arte, é a falta de inteligência humana que já não a percebe mais.