08/07/2025
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Quem é o culpado por parir Braque e Picasso?

Platão nos ensinou, dentre muitas coisas, a situar-nos na realidade com o senso adequado de nosso lugar no mundo. Alegou que a posição do homem é de uma tensão sinistra e inescapável. Tal circunstância está no fato de não sermos deuses; nos faltam atributos divinos, atributos de perfeição. 

Os animais, por sua vez, não têm consciência do supremo, do absoluto, de Deus. Não gozam de conhecimento acerca do divino, e tampouco noção de que existe perfeição. Nós temos, mas não somos. Estamos numa disposição indefinida entre o animal e Deus. Por isto, rumamos sempre para frente, num impulso qualitativamente progresso, no anseio de desbravar espaços que a luz não chega. No final das contas, queremos sempre alcançar aquilo que Deus é. Não obstante, sabemos que só podemos emparelhar meandros confusos de uma assíntota que revela, aos quatro cantos da existência, nossa condição de imperfeição perante o Absoluto. 

A conjuntura expressa por Platão foi o ambiente grego da Polis tanto quanto o contexto comunal da idade média. O grande espanto da filosofia, desde Tales de Mileto, foi exatamente nossa condição perante o Ser e a tentativa de compreendeLo. Edouard Zeller nos leva até os poetas gregos antes mesmo dos primeiros présocráticos, comprovando a avidez insaciável na busca pela causa Primeira.  

Essa tensão de estranhamento acerca de nosso estado na égide do mundo passa, exatamente, pelo problema gnosiológico. O conhecimento é a chave que abre as portas de oportunidades, descobrindo o deleite segredo de viver o gozo da vida na relação com a natureza plana e a natureza do alto, rechaçando, através da adequação no mundo, as ameaças imediatas à sua vitalidade e, também, a circunstância de mortalidade. Só que, diferente do animal irracional, queremos progredir em meio ao fato da inaptidão física. Contudo, servindo-nos de uma habilidade fulcral e particular para desenvolver, através da relação com o Logos, o poder do discurso.  

É importante, a partir disto, ter em mente as dificuldades acerca da própria percepção. O contato com a realidade nos dá a chance de notar que nossa percepção nunca é uma captação inteiramente adequada da substância. A coisa em si nos aparece apenas como fenômeno, mesmo que sua presença seja total. Nos modos de João de São Tomás: Só percebemos signos. Sendo assim, aquilo que nos chega já não é possível fazer juízo perfeito. Só quem é capaz de perceber a substância e fazer juízo perfeito é Deus.  

Existe, por consequência, uma segunda etapa que é a elaboração do discurso. Tal habilidade serve para expressarmos nossa percepção ao próximo. A arte tem isto como um de seus atributos principais, porém, é de outra ordem. O que nos cabe nesta meditação é o fato de que expressamos nossa percepção aos outros através do discurso. Entretanto, se a percepção não é capaz de gerar um juízo sobre a substância e sim sobre o fenômeno, então, o discurso aos outros acerca da percepção que tivemos do objeto nunca será perfeito.  

A terceira fase é o motivo subsequente da imperfeição do discurso, que é acomodá-lo à percepção. Isto é: comunicar a experiência. Esse filtro já nos deixa distantes, não da verdade, mas da capacidade de expressá-la.  

Esta é a condição humana perante o cosmos, e não somente todos sabiam disso, como aceitavam a conjuntura, visto que é o estado existencial humano e nada podiam fazer para resolvê-lo. Olavo de Carvalho chama tal aceitação de contemplação amorosa. Um respeito absoluto perante o peso eminente da realidade sobre nós.  

Algo, então, ocorreu quando, no período da renascença, surge um afã pela matematização dos fenômenos, dando ao homem a tentação serpentina de não aceitar os mistérios do cosmos, e assim, por algum meio, adequá-lo na palma da mão. Acreditavam, tais filósofos, artistas e cientistas, que poderiam ajustar o discurso e enquadrar a natureza dentro de seu círculo de ordem através das descobertas de métodos matematizantes que pudessem dar tal poder a eles.  

Francis Bacon, por exemplo, joga tudo aquilo que é objeto concreto, ou seja, a coisa em si, na latrina. Não se investiga mais a substância gato, e sim, os esquemas lógicos, métricos e matemáticos acerca dele. 

Os artistas e teóricos da arte, na época, já se deliciavam com a nova magia de representar perfeitamente a natureza, a partir da descoberta da perspectiva e da proporção dos corpos. Leonardo Da Vinci e Michelangelo chegaram a estudar defuntos até o moribundo começar a cheirar mal. Cennino Cennini alega que a arte só pode ser considerada de alta qualidade caso o feitor pudesse reproduzir um objeto em sua perfeição mimética.  Dürer é quase de mesma opinião. Rafael, mais ousado, aponta que o artista é responsável por ajustar as imperfeições da natureza. Só que isto é somente para dar um paradigma do ambiente europeu em que Bacon está metido.  

O fosso, no entanto, é mais profundo e quem o cava é Descartes, ao reduzir absolutamente tudo à razão humana. Enfia um punhal na racionalidade universal clássica e, também, tomista. Todavia, o faz pelas costas, dado que nunca encarou os escolásticos nos olhos. O cartesianismo crucifica o logos uma vez mais para seu próprio triunfo, dando ao homem a oportunidade de seguir o próprio rumo na ascensão de um tal poder que viria de dentro do indivíduo mesmo. A razão em Descartes é mera imanência, pronta para moldar o discurso, deixando-o tão vigoroso a ponto de ajustar o mundo à sua vontade, tanto quanto fez Caravaggio ao ajustar putas em suas obras, transformando-as em santas.

Nesse sentido, o mundo racionalista resolve o problema que atormenta o homem moderno. Ao menos, cria uma ilusão de resolução. Agora, a verdade não depende mais da percepção acurada do objeto, podemos precisá-la mediante equações matemáticas. Joguemos a coisa em si no lixo; coloquemos um quadro negro cheio de números exatos. Pronto! Fabricamos a verdade pensando tê-la encontrado!  

Hume, notando quais seriam as consequências da onda cartesiana, emerge um espírito cético ainda mais avantajado do que aquele que atormentou Descartes em seus sonhos. Grita ao seu antecessor que não temos nem mesmo acesso racional ao “eu”. Segundo Hume, nada podemos conhecer. Copleston e Olavo de Carvalho alegam que Hume não acreditava neste ceticismo, e só elaborou a proposição apenas para afirmar que o racionalismo cartesiano era impossível. Toda a feitura foi no intuito de salvar seu conservadorismo.  

Sucesso fez, mas junto dele Newton, com um tipo encantador de mecanização geral do cosmos. Agora, no físico, a matematização da realidade é tão acentuada a ponto de paralisar todo o conhecimento ou possibilidade metafísica. Tudo está determinado, medido e ritmado como um grande relógio.

Immanuel Kant, por sua vez, vê com bons olhos o trabalho de Hume. No entanto, não pôde ignorar a influência newtoniana. O filósofo idealista quer pôr a razão em seu devido lugar, organizando o ambiente intelectual europeu que estava, até então, uma barafunda. 

Acaba por desviar, absolutamente, todo o eixo de atenção. Em Kant, o discurso ainda tem força. Não se entrega inteiramente a Hume. Contudo, não deixa com que o racionalismo filosófico e o mecanicismo newtoniano fossem as vias supremas de certificação do real, numa busca insaciável pelo discurso perfeito. O filósofo alemão aceitou o fato dos antigos de que era impossível expressar a realidade tal como ela é. Só Deus pode. Porém, diferente deles e dos medievais, o problema se encontra não na estrutura da realidade, que nos limita por meio de determinações da ordem natural. Kant odeia toda e qualquer determinação. Para o idealista, o óbice está na estrutura cognitiva humana. Uma limitação de nossa percepção e unicamente dela.

A descoberta foi um êxito estrondoso! Mais pela novidade do que pela precisão. As reações a ele não foram suficientes para ofuscar os feitos. Faltavam escolásticos para assegurarem que a limitação do discurso frente ao real não era um problema noético, num infortúnio de não podermos apreender a coisa em si, e sim que a própria estrutura da realidade é limitação para a percepção humana. Só podemos captar os objetos em três dimensões. A parte costal sempre estará oculta. Não é uma eiva de nossos olhos ou cognição, senão a imposição da ordem natural sobre nós.  

Só que São Tomás de Aquino morreu faz tempo; Roberto Grosseteste não podia falar do alto de seu túmulo, Duns Scot foi, na época dos românticos germânicos, ignorado por completo. João Poisant até tentou preparar a modernidade, concatenando a idade média com os novos ventos, mas ninguém deu ouvido ao Tratado dos Signos. 

A reação, portanto, virá das próprias terras de Kant; da própria linhagem daquilo que veio a ser o idealismo alemão; da própria herança kantiana de Johann Fichte. É de Hegel, gigante filosófico, que vem a renitência. Reage, conflita, obsta as ideias kantianas, inflando o que os racionalistas e mecanicistas alegaram nas gerações passadas. Todavia, não é inócuo. Aceita o Logos como ponto de partida; mas um absoluto peculiar que nada é senão no atrito inevitável com a inevitável negação de si. Por isto, não está em nós, porém, se manifesta no tempo, desenrolando uma “grande História da consciência”, visto que o tempo é um jogo sempre presente do passado e futuro que se dá na consciência que concatena esse absoluto conceitual do logos, do Espírito. É por esse nexo que podemos obter o discurso perfeito, e para Hegel é próprio da forma humana consubstanciar-se naquilo que não é ele mesmo e sim o absoluto, numa caminhada ilimitada pela trilha dialetizante do devir. O homem é, no fim das contas, o ente consequente da história e aquele que é consciente dela e, devido a isso, o Espírito encarnado. Contudo, o homem é único e Hegel não acredita na individualidade, dado que tudo é sistema. A sociedade, talvez? Mas sociedade não é sistema, por motivos óbvios. As relações humanas, que constituem o que chamamos “sociedade”, não são uma ordem intrínseca, dependem de uma racionalização gerada pelo poder que dá sentido aos elos intersubjetivos. Este se encontrará no Estado, a maior invenção humana, segundo o filósofo. Entretanto, o homem, a sociedade e o Estado nada são fora da grande história do Espírito do qual se manifesta no tempo. O Estado passa, muda, entra em metamorfose, nasce e morre. Tudo isso dentro da História.

Se o único consciente do processo histórico é o homem, é dele, também, o discurso.  Não só Eric Voegelin compreendeu a magia hegeliana. Hoje em dia, há pesquisas suficientemente claras desde John Langhland e Peter Dews a Glenn A. Magee sobre a estrutura panteísta da filosofia de Hegel. Quando fez as primeiras descobertas, sabia estar construindo algo digno dos grandes filósofos. Encerrouse no desbravamento de sua criatura, cresceu os olhos ao vislumbrar a sumptuosa luz em sua própria alma, enxergando no sistema, a fórmula da onisciência. Teólogo e, também, dominante das ciências herméticas de Jacob Boehme e das tradições gnósticas, conhecia a magia da auto-divinização, chegando através do discurso que transcende e domina a ordem natural. O segredo é um tipo de processo alquímico, transformando a filosofia, que Sócrates definiu como o amor ao conhecimento, na posse mesma do conhecimento.  

Os marxistas, logo depois, tomam esse gancho para arguir que eles têm a posse do discurso perfeito, formulando materialmente todo o processo histórico da humanidade.

Tanto o kantismo quanto o hegelianismo fizeram emergir, no século XIX, os dois monstros que atormentaram e deformaram o mundo ocidental: o positivismo com o primeiro e o marxismo com o segundo. No positivismo, a religião dos discursos adequados para, através dos métodos científicos e técnicos, racionalizar toda a ordem social numa perspectiva horizontal; o marxismo, por sua vez, a religião do discurso absoluto em um domínio total pela assimilação do processo histórico. Ambos têm algo de esquizofrênico e até psicótico. Kant é depressivo, Hegel megalomaníaco.  

A postura lunática das frentes filosóficas da modernidade influenciou a arte, para o bem ou para o mal. Não farei análise estética da qualidade do que foi construído no desenvolvimento da pintura, escultura, literatura, teatro ou música.

O valor da arte ocidental é incomensurável, entretanto, o ambiente em que se desenvolveu marcou o traço danoso no espírito do gênio. 

Braque e Picasso é caso interessante. Sofrem mais por estarem numa linha do tempo onde tragaram todas as doses de venenos administrados por intelectuais que edificaram a mentalidade ocidental por séculos. 

Picasso quer mostrar o discurso perfeito mesclando a matemática dos mecanicistas para adaptar o mundo dentro do poder das medidas. Busca a singularidade que não interessou aos renascentistas. Da Vinci só quis imitar; Rafael, ajustar. Picasso, tanto quanto Braque, dá passos mais ousados em direção a uma auto-divinização. Querem ter o olhar de Deus. Mostrar à audiência como Deus percebe os objetos da realidade. Entende Kant, mas rejeita que o gênio possa ter limitações cognitivas ou oculares. O artista não pinta com os olhos e não pensa com a mente. Tudo o que faz é com o espírito. Só assim alcança a autodivinização. Por isto, o poeta e o pintor são maiores que os filósofos. Seus discursos sangram a alma, mas estas são imortalizadas na letra e no quadro. Não os limita, e tal é a descoberta da arte do século XX. Os impressionistas eram kantianos, mas os cubistas, enquanto todos os movimentos estavam tentando compreender a ordem social e espiritual, já eram deuses e estavam ali para expressar o prisma divino.  

O rompimento das dimensões espaciais marca a ordem cubista. É matemático; uma matemática mística capaz de desmembrar todos os aspectos da substância e desvendá-las não somente nos mínimos detalhes, mas também naquilo que o gênio almeja. É como um feiticeiro no domínio do terreno, tomando a atmosfera das formas a seu favor, criando uma ilusão. Entretanto, ilusão de formas que existe na frente do espectador.  

Picasso transforma todos os objetos em geometrias desmontáveis, como se fossem brinquedos. Pode revelar as mais íntimas partes de uma mulher sem despila; pode desmontar um violino sem desafina-lo. Braque o faz com paisagens inteiras e natureza morta, talvez inspirado por Paul Cezanne que soube deformar as figuras sem desarmonizar a composição.  

Pablo Picasso – Les Demoiselles d’Avignon 1907

Georges Braque é mais cubista. O maior de todos. Estudou melhor as formas e compreendeu o que o próprio espírito exigia. Tem a geometrização nas mãos, assimilou melhor Cezanne. Pablo Picasso obteve mais sucesso que Braque porque pinta mais. Explora as cores como raramente se viu desde Ticiano. Neste quesito, superou todos os impressionistas, até mesmo Monet. Apesar disto, ambos quebram a barreira que limita o discurso. Ambos colapsam as dimensões que impedem o olhar humano. Do ponto de vista clássico, os cubistas disseram aos filósofos que existia, sim, o discurso que romperia qualquer limitação imposta pelas determinações naturais. Na perspectiva kantiana, responderam que com o olhar do espírito podiam ajustar os olhos e conseguir ver como Deus vê. Kant

George Braque – Violino e Cântaro

silenciou-se.  

O cubismo é a arte dos psicóticos megalomaníacos. No entanto, é tão somente a expressão estética daquilo que veio a ser o mundo do século XX. Picasso e Braque são apenas efeitos e não causas. Nasceram  de  uma Europa  decadente, treslouca e embriagada de um afã proteica, num êxtase de

autodeterminação do espírito. Uma busca incessante por autonomia, como bem aponta Francis Schaffer em sua obra A Morte da Razão.  

Quem pariu Picasso? Quem são os pais de Braque? Quem conhece e pode encontrar os responsáveis por tais marginais inconsequentes e brincalhões? Meninos malcriados! Quem os pariu não foi uma mãe, nem mesmo uma meretriz em particular que ganha a vida no comércio de seu corpo. Não sei especificamente se filhos de Francis Bacon, Descartes, Espinoza, Hume, Newton, Kant, Hegel… não sei, não sei… e ninguém sabe! Contudo, bem sei, e disto estou certo, serem filhos de orgias dionisíacas de todos eles, deleitados nos banhos escarlates dos vinhos

Geoge Braque – Violino e Vidro

pagãos que adentraram nas artérias e embebedaram a alma dos partícipes do rito filosófico durante os séculos de auto-hipnose. Nasceu, assim, a arte cubista. Deste modo, pariram Picasso e Braque com seus discursos perfeitos e totalizantes. Não é arte de Deus, como bem aspiravam. É tão somente arte de loucos, embebidos de leite materno dos intelectuais modernos.   

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