09/08/2025
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Como em um texto que se pretende escrever ou a vida que inexoravelmente experenciamos, colocar-se em movimento é imprescindível. É preciso caminhar, ir ao encontro daquilo que buscamos mesmo que não saibamos com clareza que direção ou sentido tomar.

O pulso que origina este movimento, seja à escrita ou viver tem necessariamente uma motivação. Pode ser uma alegria que deseja ser multiplicada ou uma tristeza que deseja ser dividida e por isso compartilhada, ou mesmo o medo que se manifesta em busca da sua ausência.

Reparo que seja qual for esta força motriz, a angústia está presente. Essa angústia parece ser gerada pela insatisfação do lugar ou do momento em que se encontra a pessoa. Assim, para mim, a angústia não é algo necessariamente ruim ou negativo. Este desconforto, essa inquietude nos coloca no “movimento” de busca que pode manifestar-se como um movimento propriamente dito ou na imobilidade que conduz ao pensamento introspectivo. De as todas maneiras há uma ação de busca.

Ocorre também que a angústia ceda lugar para a apatia. E curiosamente, mesmo que este sentimento possa desencadear processos internos depressivos e insalubres, pode gerar a angústia que ensejará uma quebra nesta impassibilidade. É provável que a dor seja então sentida e posteriormente identificada e o pulso interno se altere criando o movimento de saída do ciclo que a não-ação estabeleceu.

Identificar-se com os aspectos que estes sentimentos e emoções expressam pode se constituir em algo arriscado que prolongará esta imobilidade e poderá reforçar aspectos ilusórios de quem se é.

Notei ao longo desta vida que as referências externas se apresentam como insuficientes, ainda que possam servir de inspiração para os caminhos internos que nos levam a agir em prol daquilo que intrinsecamente necessitamos.

Esta reflexão não pretende obviamente relativizar os aspectos que nos levam a nos mover no sentido daquilo que desejamos superar, igualando suas características. O que se pretende aqui é manifestar um aprendizado e estendê-lo ao leitor da melhor maneira possível.

Aquilo que é necessário não pode faltar e por isso ocorrerá de uma maneira ou outra. A diferença, observo, está em reconhecer o sentimento manifesto e caminhar em direção a ele e extrair todos seus aspectos geradores.

E isto me fez lembrar de quadro princípios que muitos conhecem como virtudes.

A TEMPERANÇA.

Ativá-la significa “ser senhor de si mesmo” ou como disse Sócrates em A República (Platão): “A temperança é uma regulação e domínio de prazeres e desejos.” Esta sobriedade em viver tem como aliada e possíveis sinônimos: a parcimônia e a modéstia.

É provavelmente que neste ambiente o “combatente de e em si mesmo”, empreenderá sua batalha e superará suas inquietudes que angústia sinalizou. E para a batalha é preciso coragem.

A CORAGEM.

Dirá o amigo Sócrates que “a coragem é uma espécie de conservação.” Se por um momento observarmos nossa “unidade” (alteridade) física, psíquica (emocional) e espiritual veremos que possuímos “guerreiros internos” que visam manter nossa integridade e conservar nossa natureza e vida. O sistema imunológico pode ser um exemplo físico disto.

Assim, no sentido de conservar nossa lucidez e razão na ação, o agora combatente deverá empreender de todas formas possíveis suas habilidades em defesa de si mesmo. E ele não precisa fazê-lo de forma solitária. A música que eleva, o exercício que tonifica, a literatura que edifica e os pares de luta serão justos aliados.

Mas o combatente deve estar sereno e ser prudente.

A PRUDÊNCIA.

Esta silenciosa e atenda observadora da emoção e da razão permitirá que uma e outra se mantenham em equilíbrio. Neste ambiente a intuição será ativada e a sabedoria que emerge se unirá à bravura e veremos a coragem se transformar em intrepidez (destemor + sabedoria, tenho entendido).

E para que tudo seja justo e em medida perfeita há que se convocar a justiça em direção a si mesmo.

A JUSTIÇA.

Nos lembra Sócrates que “a justiça consiste em fazer com cada um aquilo para que o dotou a natureza.” Por isso, olhos atentos aos lobos que as referências externas e as comparações trazem. A unidade do combatente tem seu talento, vocação e missão. Pois que vejo que diante das angústias e adversidades que a vida oferece, podemos contemplar verdadeiros regalos que permitem ao caminhante caminhar e conhecer a si mesmo, superando, transformando e desobstruindo os véus que o impedem de reconhecer a plenitude que nele é manifesta: a vida eterna.