07/07/2025
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Entre idas e vindas, ascensão e declínio, a razão transcendente foi sendo lentamente obscurecida no horizonte contemporâneo. Isso se deu através de um desgaste sutil, desencadeado sob a lógica imanente do progresso técnico, na busca das comodidades. Lembro-me de Nietzsche, quando observando em seu contexto, conseguiu enxergar tal fenômeno estabelecendo o que ele chamou de “A morte de Deus”.

Friedrich Nietzsche, em sua obra seminal “Assim falou Zaratustra” (1883–1885), apresenta uma denúncia filosófico-literária do colapso da razão como valor supremo da cultura ocidental. A célebre e polêmica frase “Deus está morto” não se trata apenas de uma provocação, é uma constatação do esvaziamento dos fundamentos transcendentais da moral, da verdade e da razão universal que até então sustentavam a civilização ocidental. Nesse vácuo deixado pela morte de Deus, a razão perde seu pedestal absoluto e é confrontada com o niilismo, isto é, a percepção de que nada possui um valor intrínseco ou objetivo. Em resposta a esse colapso, Nietzsche propõe a figura do além-do-homem (Übermensch), que não representa um ser superior biologicamente, mas um tipo de existência capaz de criar novos valores, de viver segundo uma vontade afirmativa, estética e trágica, substituindo o logos pelo pathos, a certeza pelo devir, a moral pela “vontade de potência”. E, com efeito, o fato de propor um novo valor moral fundamentado apenas no homem, apesar da precisão cirúrgica na identificação da crise civilizacional do Ocidente, Nietzsche falha em seu prognóstico e na etiologia que atribui ao fenômeno. A derrocada da moral cristã e da razão transcendental não decorre necessariamente de uma falência interna desses sistemas, mas da insuficiência humana em sustentar os valores que deles emanam. Em outras palavras, a corrupção não nasce da ideia do absoluto, ela surge da fragilidade do sujeito moral moderno, incapaz de permanecer fiel ao chamado ético que fundamenta a razão ordenadora. O erro de Nietzsche está, portanto, em diagnosticar a morte de Deus como causa do niilismo (o niilismo, para Nietzsche, é a desvalorização dos valores estabelecidos, a percepção de que eles não são mais válidos ou significativos), quando, de fato, essa morte é apenas o sintoma final de uma degeneração mais profunda: a deserção progressiva do homem frente ao ideal que o transcende. Partindo do pressuposto da falência do mundo ocidental — ideia que não rejeito — uma vez que é facilmente constatada nas relações interpessoais; observo que qualquer tentativa de substituição da ética e moral cristã está fadada ao fracasso, pelos mesmos motivos anteriormente descritos: a inclinação humana à corrupção.

Todas as civilizações — em qualquer estágio histórico — necessitam de um “Deus”, entendido não apenas como uma divindade pessoal, mas como uma estrutura de sentido, um eixo simbólico em torno do qual valores, normas e finalidades são organizados. Mesmo nas civilizações que se pretendem seculares ou ateias, a racionalidade científica, o progresso técnico ou a liberdade individual acabam por ocupar o lugar deixado pelo transcendente. Nietzsche acerta, pois, ao perceber o colapso do eixo tradicional do Ocidente, não obstante, erra ao concluir que o único caminho possível seja sua substituição por um novo conjunto de valores autogerados, oriundos de uma vontade criadora que não se submete a nenhum padrão absoluto universal. Essa tentativa de refundação ética, que culmina na proposta do Übermensch, mostra-se impraticável, pois carece de um fundamento que transcenda o próprio homem — fundamento este necessário para impedir que qualquer nova moral seja corroída pelas mesmas inclinações humanas que degradaram a anterior.

A tentativa nietzschiana de substituir a moral cristã por uma ética estética e afirmativa tropeça no mesmo obstáculo que denunciava: o homem. Não há como fundar uma nova moral a partir da imanência pura, pois todo valor que se origina exclusivamente no humano carrega, desde sua origem, as sementes de sua própria corrupção. O niilismo, portanto, não é superado com a criação de novos valores, mas agravado — agora encarnado em um tipo de homem que, ao tentar ser seu próprio Deus, encontra apenas o abismo da autorreferência. Nesse sentido, a moral cristã — mesmo que desacreditada ou desvalorizada pela modernidade — permanece como o substrato ético da civilização ocidental. Mesmo os que não creem em Deus operam segundo categorias morais estruturadas por essa tradição. Sua permanência, mesmo que subterrânea, demonstra que qualquer tentativa de ruptura absoluta com o cristianismo implica não em emancipação, mas em regressão.

Nietzsche falha na observação da causalidade. A falha nietzschiana, portanto, não está na observação do colapso dos valores, mas na determinação de suas causas e no fracasso em apresentar um substituto viável. Sua crítica à razão clássica e à moral cristã não encontra alternativa segura que as substitua, pois toda ética derivada exclusivamente da vontade humana será igualmente perecível. O logos cristão não colapsa por falência lógica ou ontológica, mas porque os homens se afastaram dele — e, com isso, abriram caminho para a crise do sentido. A racionalidade transcendental continua sendo, mesmo em sua crise, o horizonte último de orientação moral e civilizacional. Nietzsche filosofou com o martelo e quebrou ídolos, mas não conseguiu oferecer um novo templo onde o espírito humano pudesse habitar com dignidade.

Em termos dialéticos, pode-se afirmar que Nietzsche acerta na tese (o diagnóstico da decadência moral da modernidade), mas erra na antítese (a morte da razão transcendental como causa desse fenômeno) e falha na síntese (a tentativa de substituição por um novo ideal imanente). O resultado é um ciclo trágico: a crítica destrutiva sem reconstrução. A racionalidade ocidental — mesmo ferida — permanece em ruínas não por ter sido superada, mas por ter sido abandonada. E sua restauração não virá de novos valores criados pelo homem, e sim da restauração de um eixo transcendente que permita recompor o sentido da existência humana em sua totalidade — como resposta ao chamado do eterno.

Nietzsche, afinal, em sua lucidez diagnóstica é indiscutível, mas sua arquitetura para o futuro é frágil. E talvez seja precisamente aí que resida sua grandeza e sua limitação: ele soube dizer o que estava morrendo, mas não conseguiu algo que pudesse substituir de forma efetiva. Inevitavelmente, qualquer elemento substitutivo da razão ocidental, excluindo o caráter universal e transcendente do Logos, está fadado ao niilismo existencial.

A Falência da Razão

Na mais cruel das verdades, o homem não matou Deus de forma libertadora — ele apenas se distraiu d’Ele, ocupando-se com aquilo que julgou ser substituto suficiente: a razão instrumental. Ao afastar-se do transcendente, não apenas perdeu seu eixo simbólico, mas internalizou ferramentas racionais autocentradas, sujeitas ao próprio escrutínio contínuo e infindável. Essas ferramentas, que outrora foram ponte para o saber e a ordem, tornaram-se espelhos deformantes — refletindo não o mundo, mas as fissuras do próprio sujeito. E sem um norte universal, sem um eixo ético-metafísico que ancore o real, o homem moderno se vê imerso na maior de todas as privações: a impossibilidade de perceber o real como real. O mundo se apresenta como dado, mas não como verdade; como fenômeno, mas não como sentido. A crise, portanto, se dá na amputação de qualquer transcendência, o que a condena a girar em círculos sobre si mesma — uma razão órfã de finalidade, exaurida pela própria autonomia… (cont. no próximo post)

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